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 "
Plenitude "
                                                             José Décio Filho


Neste instante não há futuro.
E o passado se apagou
nas distâncias adormecidas.
O que há é o presente
transformado em nosso corpo e em nossa alma,
qual uma chama crepitando nas trevas
ou aurora de fogo
ofuscando todos os horizontes possíveis.

Tédio áspero, caminhos duros e amargos,
limitações, dúvidas, desesperos,
e todas as velhas tristezas de sempre
são nuvens que se desfazem
ao sopro cósmico do nosso encontro..

Como se fosse uma estranha a longa noite
em que de súbito nos víssemos
eliminados do quotidiano,
sem esperanças nem inquietações,
sem constrangimentos nem censuras.
E até a própria nação exasperante do desejo
eliminada pela plenitude da posse.

Só as mãos e olhos e palavras murmuradas.
Só os nossos seres palpitando
nas suas vidas animal e metafísica.

Sem darmos pela presença do Universo,
sem luar, sem estrelas, sem paisagens,
ignorando até o espaço e o ar que nos alimenta...
E quando vier o amanhã,
com lucidez de todas as cousas,
com a percepção de todos os rítmos,
dentro do circulo comum da vida,
não nos reconheceremos mais.


Mas o nosso encontro tão único e tão estranho,
abrirá um sulco em nossas almas
onde se depositarão todas as mortes.


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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