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 "
Mensagem à Frederico "
                                                             José Carlos de Macedo Miranda



Frederico!
Desta vez não te falarei da amada morta
e do amor algébrico que traçou curvas e inventou teoremas
Mãos decepadas tocam piano sobre o fogo.
Cabeças ensangüentadas de profetas,
mulheres tuberculosas sobre máquinas Singer.
Jean Patou jamais existiu!
De fato teu xará, Garcia Lorca nunca fez revoluções,
apenas chupou laranjas em Granada.
O que-me-importismo ficará transido ante as metralhadoras.
Falo em nome do sangue dos profetas assassinados pela cavalaria
e te convido a tomar cerveja gelada mas nunca no Esplanada Hotel.

É preciso que abandones Augusto Comte
mas não que te cases com o chefe de policia.
Há muitas outras coisas mais que são precisas.
A gramática não conta.
Nem o sangue azul.

Vermelho e preto.
Nem Stendhal nem simbolismo:
mãos decepadas e profetas bêbados.
Se quiseres, tens o meu consentimento para fechar
os hospitais e açoitar as prostitutas.
Tens licença mesmo de rolar embriagado nas calçadas
mas não de por dinheiro no Banco.
Sobretudo, precisas ver a dor real,
sem equações e sem parábolas.
Dor sem geometria,
dor que grita sangue,
dor que não é senão dor.
E então despe o teu burel de apóstolo
e vai pregar falas novas no cais do porto e no Morro do Pinto.
Come trinta vezes nos botequins da Praça Tiradentes
e mergulha as mãos em nanquim.
Não tenhas medo, Frederico!
A nossa dor te ampara e te protege.


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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