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 "
Balada Social "
                                                                    Helio Pellegrino ( 1924 /1988 )             


Andróginas repolhudas,
Lídimas corças no cio,
Vosso amor como um cicio
Vem transgredir meus recatos!
E como me assoberbais
Com os vossos passos devassos
Atrás dos quais se acoberta
A sombra das traições!
Vossos olhos são lucernas,
Vossas antes, intenções;
Viveis a vida escondida
Das mais torvas secreções.
E tudo com o jeito puro
De quem decora um missal;
A perna, de tão prudente
Se descruza, e vai mostrando
Apenas o essencial.
Vosso calor se transmite
Como um segredo das almas,
Enquanto estais muito calmas
Às sombras dos guaranás.
A taça nos vossos dedos,
Vos assentais. Vossa bunda
Referve a vide fecunda
E secreta dos sofás.
E nascem deste conúbio,
Ao dúbio sabor do jogo,
Largas pétalas molhadas
Pela água do vosso fogo.
Vossas coxas se enlanguescem
Do mais cálido licor,

Vossas sedas se emudecem
Na sede de vosso ardor.
E a tudo mostrais descaso,
Lentas, livres, madrigais.
Líricas flores do acaso
Recém-vindas de currais . . .
E tendes pudor. Dos peitos
Sois tementes, a os prendeis
Na rede já consagrada
Dos mais finos preconceitos.
Nada mostrais ! Sois tranqüilas.
Nas vossas pupilas arde
O aceno de não querer.
É tarde! - dizeis - na boca
Tendes o horário, Na carne,
Porém, já dilacerada
Pelos filtros da paixão,
Carregais a fruta azada
À espera de ocasião . . .
.............................................

Licenciosas burguesas!
Que nas mesas assentais
Vossas nádegas marquesas!
Vos amo assim , repolhudas,
Gordas aves estivais!
Vos amo nos vossos ais
Plenilunares, que aos ares
Transmitem toda a delicia
De vossa ardente sevícia!
Vos amos assim, transfugadas,
Na estrada do descaminho,
Vulvares ou recatadas,
À cata de laranjais!


 ( Antologia da Nova Poesia Brasileira
  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.  1948  )


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