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 "
Vivendo Para o Mundo "
                                                      Haroldo de Britto Gimarães


Todo mundo esta olhando.
Eu tenho de sair desta porta,
atravessar humildemente o palco, entrar na outra porta.

Tenho de andar grave, o corpo num terno preto,
os sapatos oficialmente engraxados,
a gravata só pode ser preta também.
No caminho pararei um instante,
cumprimentarei as pessoas graúdas,
como mamãe e papai me ensinaram.

Mas eu fico danado de ter de andar assim.
Tenho vontade de virar de pernas pro ar,
deitar-me no chão,
gritar, brincar.
Beijar mulheres bonitas.
Namorar as meninas.
Conversar com as mulheres de má vida.
Ficar pelado no palco.
Arrancar o terno preto na cara de muitos sem vergonhas
que vivem desrespeitando a dignidade
da vida, no fundo, no fundo!

Mas como os meus desejos não brotam nos gestos
ninguém saberá jamais:
e é muito melhor que assim seja
porque os homens não gostam de alterar o espetáculo.


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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