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" Alma Guasca "
Gevaldino
Ferreira
Nasci no campo, e a alma que me veio,
que carrego como um bem divino,
impregnou-se toda do meu meio.
Tem perfume de terra e de fruta do mato
o canto, feito de sombras,
do urutáu, sempre triste.
Tem velhos chótes de gaita
executada ao luar.
E toadas de desaf io de trovadores campeiros,
rústicos poetas do pago.
Tem assovios do minuano,
canha, churrasco, bolichos;
chimarrão, fumo crioulo,
morenas e chimarritas,
rodeios e marcação...
Tem o drama da querência,
da miséria do gaúcho,
do gaúcho-pobre-diabo,
que não tem sido cantado
e em toda parte se vê .
Tem a amargura sem nome,
a mágoa quieta e encolhida
e todos os peões de estancia.
Dos posteiros infelizes
que envelheceram sem nada,
sem nada mais que a lembrança
das filhas que se perderam
pelo mundo, ao, Deus dará,
e a pena sofredora
de ver a sua pisada
trilhando o mesmo caminho:
criando-se analfabeta,
pra tropiar e fazer taipas,
lidar, arriscar a vida
e terminar como o pai,
velho, cansado e doente,
cansado, doente e sem nada.
Minhaalma carrega o peso
de todos os sofrimentos
que morrem sós campo fora.
É uma alma guasca, esquisita,
difícil, contraditória,
que vira, muda de jeito,
por milagre, sem querer.
Noite serena, de lua,
em cujo peito, no fundo
há mil ciclones que dormem...
Eu amo, desde criança,
as grandes várzeas floridas
e os horizontes distantes:
escola de liberdade
que freqüentei sem saber. . .
Chegado ao mundo em outubro
o mês das almas revoltas,
tenho infiltrados no sangue,
como uma sina sem cura,
a sagrada rebeldia
de todos os bois zebús
difíceis de emangueirar
e os bufos e os manotaços
dos baguais que índios guapos
nunca puderam domar. . .
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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