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" Intermezzo "
Dirceu Quintanilha -1918
Fica
Teus longos cabelos despenteado
Devem manchar ainda
A alvura de noivado
Dos travesseiros.
Vai lá por fora uma vida cheia de cansaço,
Este eterno cansaço pesando as pálpebras do mundo.
Tu foste uma experiência nova.
Não vês esta satisfação de descoberta,
Realização pura de um desejo antigo?
Fica. Assim esquecida, pouco importa,
Os olhos perdidos, no vazio.
- Uma réstia de céu
Na moldura da janela...
E dar-te-ei, então, as paisagens procuradas,
A garoa, a triste garoa das tardes mortas.
Dar-te-ei um momento qualquer
Pressentido pela tua adolescência.
Pedaços de claridade
Debruçados sobre os caminhos
Através das árvores espessas.
E contarei historias coloridas;
- As nossas infâncias, castelos encantados,
Líricas princesas.
E contarei histórias mais humanas
Onde o sangue corre ardente
E as palavras machucam
E as palavras doem dentro da gente.
E direi, desta incerteza, dente amor enorme,
Desta dúvida agarrando a sonolência das horas.
Este medo indefinido, vago,
De se perder, um dia,
Uns olhos muito tristes
E uns cabelos desmanchados.
Foram sombras que amei
Na solidão do meu passado.
E de tanto conhece-las
Ficou nos lábios um gosto amargo
E este ceticismo, e esta indiferença,
Por novos amores procurados.
Na repetição eterna de se amar,
Esqueçamos a igualdade de amanha
Onde os gestos a as palavras cansam
E trazem abismos irremediáveis.
Fica.
Deixa os longos cabelos despenteados
Manchar ainda a alvura de noivado
Dos travesseiros.
Deixa a branca lua surgir.
Na réstia de céu,
Na moldura da janela
Aberta para a tristeza do mundo...
Deixa a branca lua surgir...
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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