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" O Afiador "
Cid Silveira - 1910
A gaita que sopra no-lo
denuncia. Pára à porta,
e a tesoura que não corta
ele a afia no rebolo.
Pisa o pedal. E, vermelhas,
rompem, do atrito rascante,
mil pequeninas centelhas,
como chispas de brilhante.
E quando a tesoura roça
na pedra, a correia espicha,
fazendo um ruído de lixa,
mordente, de lixa grossa.
A epiderme fica cheia
de arrepios crespos quando
rodam, rebolo e correia,
e a tesoura cega afiando.
Provocam irreprimidas
alucinações de tato,
como sôfregas lambidas
da áspera língua de um gato...
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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