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" Elvira "
Cid Silveira - 1910
(Este crepúsculo espanta; .
o sol desfaz-se em estilhas
contra o dia que findou.)
Na rua, a menina canta:
- Quero uma de vossas filhas,
mato a tiro, tirorô.
(Passam duas sombras juntas,
de caminho para a igreja,
que a reza já começou.)
Fazem-se então as perguntas;
- Mas qual o senhor deseja,
- mato a tiro, tirorô?
(Luzes acendem-se. Em cada
luz, a mariposa gira,
na vertigem do seu vôo.)
Vem a resposta esperada:
- Eu quero a menina Elvira,
mato a tiro, tirorô.
(Surge o vulto venerando,
no peitoril da janela,
de um homem grave, um avô. )
E todos estão cantando:
- Mas que oficio dá pra ela,
mato a tiro, tirorô?
(Eis que um garoto se esconde;
quer ver melhor os sapatos
que o pai hoje lhe comprou.)
E a voz fraquinha responde:
- Dou oficio de lavar pratos,
mato a tiro, tirorô.
(Longe das outras, na esquina,
a menina delicada
põe-se a jogar diabolô.)
Responde a mesma voz fina:
- Esse oficio não lhe agrada,
mato a tiro, tirorô.
......................................................................
Passa o tempo. O mundo vira!
Penso na Elvira, coitada,
que nunca pratos lavou.
Porque... (coitada da Elvira... )
- é melhor não dizer nada -
mato a tiro, tirorô...
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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