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" Poema das 3 horas da Madrugada "
Carlos Heitor Cony
Volto do baile sozinho com meus pensamentos.
A noite esta úmida como um lábio de mulher.
Na rua deserta, os trilhos conversam em silencio,
E as luzes rebrilham de manso
Nas poças dágua.
Eu caminho sozinho com meus pensamentos.
Ougo, apenas, o barulho dos meus passos.
E vou seguindo pela rua escura
Como um cão nômade e vagabundo.
Passo, sem querer, pela rua onde moras.
As poças dágua refletem as lâmpadas tristonhas.
Uma laranja abandonada na sarjeta,
Apodrece sem sentir . . .
Nao sei porque,
Senti inveja da laranja podre . . .
Talvez, tu mesmo a devoraste
Sequiosa do sabor daquela fruta...
E aquele gomo que fenece corrompido,
Cheio de mosquito,
Teve a ventura extrema de roubar
Dos lábios teus a sensação primeira ...
Aquela casa que dorme como uma velha exausta
Tem, para mim, um prazer angustioso.
Nela tu dormes. Vejo a vil janela
Que me esconde, emudecida e fechada,
A visão do teu corpo em desalinho...
Aquela samambaia
Ali na varanda,
Recebe todo o dia
A benção singular
Do teu carinho de menina doce...
Que pena não poder ser uma samambaia ...
Um bonde passa, em ponto nove,
Ligeiro e deserto, fazendo barulho.
E eu vou embora ...
Pela noite úmida como um lábio de mulher,
Sentindo inveja de uma porção de coisas.
Eu sigo sozinho com meus pensamentos...
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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