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" A Discoteca "
Bueno de Rivera (1911-1982 )
A Discoteca
0 passado surge nos discos,
a voz profunda ressuscita.
Há cavatinas gemendo,
melodias brancas, soluços
do violino em conserva.
A mão nervosa, a batuta
dança no estúdio. Silencio.
A pauta sugere as notas.
Schubert morrendo tísico,
Patápio nas serenatas.
Caruso da um suspiro
no fundo da cera mágica.
A agulha fere o mistério.
Um beijo de lua desce.
Catulo abraça Beethoven
e o luar a doce a limpo
na modinha e na sonata.
Contralto em gestos macios,
sopramos em amplos lamentos.
A tristeza envolve o rosto
do tenor com a flor no peito.
Cansado das vozes mortal
da minha vitrola dócil,
abro a janela, recebo
o forte rumor da noite.
Pregões, gritos na praça,
casal lutando no alpendre
crianças chamando a mãe
O céu grava em cera virgem
o choro vivo do mundo.
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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