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" Pura "
Alphonsus
de Guimarães Filho - 1918
Sinto tanta tristeza e a tarde a tão tranqüila
Que eu to suplico: desce sobre mim as tuas mãos geladas
E embebe-as na lembrança do meu pranto,
E fica assim, de leve, a alisar os meus cabelos,
Como quem acalenta um menino doente.
Ah! pousa as tuas mãos sobre a minha cabeça. Eu te peço:
Se pura como as rosas castas que se tornam mais brancas ao vir da aurora
Se como os flocos de neve que os ventos carregam numa revoada de asas,
Como os trigais a florir, em sorrisos, na serra,
Se pura! E sobre mim desce as tuas mãos como aves exaustas
E embebe-as na lembrança do meu pranto,
Que eu quero rezar sobre a terra ferida
Pelos passos dos que jamais regressarão!
Eu te direi da traição que é como o pélago para quem busca a paz marinha,
E u te direi da minha dor a de joelhos: Se pura!
Pura como as estrelas, pura como os trigais, como um bando de garças,
Como a saudade que em mim sinto a que nao faz rebentar o trigo
Nem acordar as estrelas,
Mas que sabe onde pulsa o silencio de Deus!
Pura como as vestes da pecadora que viu a luz a ficou cega,
Pura como a lua, como os aleijadinhos que ficaram na infância,
Pura como minha Mãe.
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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