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" Seu Lobo Está Aí ? "
Êta! Lá vem o Sol montado na montanha
como num corcel,
ergue os braços das nuvens retintas de fogo
espantando as estrelas que ainda estão no céu!
Êta! Lá vem ele!
parou a montanha na linha do horizonte
e se apeou,
lá vem ele pisando sombras nos caminhos
e as sombras todas correm porque ele chegou!
No peito das florestas, fechadas, sombrias
onde pulsa o coração das águas frias
nas fontes perdidas,
mil lâminas de luz enterrou, e os seus raios
na epiderme das copas sangraram corolas
floridas!
Derramou claridade nas águas das fontes
dos córregos soltos
que rolam no chão,
sacudiu pelos galhos os ninhos sonhando
e acordou pelas pontas dos ramos as flores
dormindo, fechadas
em cada botão!
Êta! Lá vem ele correndo!
Para trás as neblinas esgarçam seus véus...
E ninguém dorme mais! A terra abre os olhos!
Quem pode dormir com a algazarra que o sol
vem fazendo nos céus?
Lá vem ele!
As ruas que estavam vestidas de sombra
olhando a vida com os olhos embaciados
dos postes, nas madrugadas,
- quando as luzes elétricas se apagam,
se espreguiçam na noite, e distendem na noite
as pernilongas calçadas!
E quando de repente
a cidade escurece,
e os raros automóveis passam farejando
com a luz dos holofotes
a escuridão,
- sabe-se que ele já vem, que ele não tarda a vir,
porque ao se apagar a terra
acende-se no espaço um imenso clarão!
Lá vem ele!... Chegou! Subiu lá em cima
no arranha-céu mais alto
e despencou por sobre os telhados e as árvores
espedaçando sombras sobre o asfalto!
Puxou o apito das fábricas: - puuu!
Tirou do portal onde estava escondido
o litro de leite, branco, branquinho
como um menino nu!
Tropeçou bem ao pé de uma estátua, no vulto
de um desgraçado
e com pena, enxugou da sua roupa, as lágrimas
que a noite havia chorado;
e surpreso, encontrou no trabalho, antes dele
o lixeiro a esvaziar as latas enfastiadas
de um lado
e do outro lado...
(A vida que estava latente
e invertida
no negativo da Noite,
- quando ele, chegou
se revelou!)
Todo mundo escutou ele chegar, rompendo
pelas portas abertas,
correndo
pelas ruas desertas,
gritando aqui
chamando ali
bocejando adiante,
na eterna correria
em que sempre viveu (funcionário do Tempo)
a substituir a Noite pelo Dia!
Chegou assim depressa, em alvoroço
porque não tarda muito, e terá que seguir,
não pode se demorar...
Lá longe, no horizonte, no finzinho do céu,
já o espera a montanha, e a montanha parece
um estranho animal de longo pescoço verde
a beber água no mar!
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Êta! Já está pronto de novo!
Lá vai ele de volta, montado na montanha
que tem crinas de fogo,
- e só quando ele sai,
as sombras todas, as estrelas todas,
vão correndo até lá se debruçar no céu
pra ver aonde ele vai!
E ao morrerem as fantásticas claridades
que como nuvens de poeira luminosa
ele após si deixou,
sobre o silêncio da terra e das cidades sonâmbulas
as estrelas brincam de roda e cantam uma canção
que certa noite já ouvi:
"vamos passear no bosque
enquanto seu lobo não vem,
- seu lobo está aí?"
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro " AMO ! " 1a edição 1938 )
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