
![]()
*****************************************
"Inquietação"
Trago dentro dos olhos essa cor da distância
quando o mar e o céu se misturam
e há um pouco de mar no céu
e há um pouco de céu no mar...
Que mundo imenso o mundo que há no meu olhar
Sinto nos braços ímpetos de
ventos que se atiram para longe, sem caminhos,
cirandando redemoinhos
cantando pelas montanhas
correndo pelas planícies
brincando por sobre o mar.. .
Ímpetos de ventos boêmio, sem destino,
cirandando
cantando
correndo
brincando
mas sempre a avançar... a avançar... a avançar! ...
Sinto o desejo estranho de tocar o além
e essa inquietude de quem tudo quer
sem procurar ninguém!
Meus pés querem achar caminhos que não findem
adivinhados na imaginação,
-caminhos que avancem sempre, como cegos,
dobrando a esquina azul dos horizontes
sabendo apenas que seguem
mas sem saber aonde vão!
Trago as ânsias divinas de um predestinado
que se atira ao que outros desconhecem
levado por eterno e misterioso anseio...
O que eu quero, não sei.
Não quero o tudo se consigo o tudo
e acho sempre que o tudo que consigo
vale menos que o pouco que não veio!
Quero sempre o que os olhos adivinham
e abandono o que o corpo já sentiu
e o que a mão alcançou
perto demais,
nessa ânsia de saber o que me vem depois,
vale mais para mim a emoção que se esboça
que toda essa vida que deixei pra trás!
Sinto que no meu Ser há essa mistura estranha
de um pedaço de céu
de um punhado de terra
e de um pouco de oceano.. .
Há o céu no meu olhar vadio e distraído
a inquietação do mar na minha alma de poeta
e a terra, no meu sangue ardente de cigano!
Trago as ânsias divinas de um predestinado
e esse destino audaz de um incomum!
Nasci para cantar
amar e ser amado
ter todos os destinos e não ter nenhum!...
(Poema de J. G. de Araujo Jorge, do livro " AMO ", 1938)
*****************************************