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"
Esplendor ! "

  
  Há trás dias chovia, chovia
intensamente
noite e dia
sem parar...

E os dedos do vento
desfiavam pelo ar
nos fios, nas folhas,
rosários de gotas,
desfiavam, desfiavam,
tal como se o vento
estivesse nos fios
chorando, a rezar...

Hoje, o Sol arrebentou no céu
num espalhafato doido de luz!
E espantou os pássaros e as sombras
e quebrou mil vidrilhos de espelhos
no chão pelos caminhos tortos
pelos campos nus...

Hoje a terra acordou lavada e cheirosa,
cabocla de vinte anos
petulante e formosa       
madurinha de amor,       
- nunca vi tanto verde em tão vários matizes!       
está cheia de seiva a carne das raízes   
e as corolas são bocas úmidas e em flor !       

As árvores verdes   
transbordando de flores   
são ondas que se elevam da terra e arrebentam
pelos ramos,       
espumas multicores!       

E o céu tem a pureza suave de imenso lençol   
de linho       
posto para quarar à luz do sol   
ainda azulado de anil, .   
- e sobre o sol redondo, uma nuvem sangüínea,   
acentua o clarão da manhã que desperta       
e faz lembrar um til...

O céu diáfano, puro, transparente
sereno
sem uma nuvem
sem uma crispação,
respira beleza olímpica, e parece
a cúpula de um templo para um deus pagão !

Parece mesmo que a terra tomou banho
e lavou os cabelos verdes das folhagens
e o vestido das matas que adornam a cidade
pelo arrebol, e agora nuazinha, nuazinha em pêlo,
soltou para enxugar, displicente, o cabelo
e deitou-se no chão para secar, ao sol! . . .

A terra está deitada, nuazinha,
com preguiça de se levantar,
com os cabelos das árvores grampeados de luz,
com o sangue azul cantando nas correntes livres
e os bicos dos seios das montanhas
pintados ao rubro!...

Está com preguiça de se levantar
tem a cabeça morena recostada
no colo das montanhas
e os pés alvos, de areia, mergulhados
na água do mar !
       
Com que preguiça
rindo feliz na boca rubra das corolas,   
lânguida e sensual,
sai da alcova da Noite braço dado ao Sol
na alegria da manhã esplendida e tropical !

E dos bicos rubros e túmidos
das montanhas
aos vales fecundos e úmidos
das florestas estranhas,
onde as águas alegres brincam de escorregar
pelas encostas,
e de carniça pelas ribanceiras
pulando nas cachoeiras
como crianças contentes,
- toda a terra vibra !
- toda a terra grita !
- toda a terra exulta !
na alegria dos frutos vermelhos e sazonados
e na ânsia. heliotrópica das sementes!
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Há três dias chovia
intensamente
noite e dia
sem para,
o Sol estava de castigo, e só hoje teve licença
para brincar...


(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro " AMO ! " 1a edição 1938 )


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