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" Trecho de Carta "
Quisera simular indiferença, quando
o teu olhar repara alguém que vai passando
e se acaso sorris a algum teu conhecido
fazer-te crer que sigo alheio e distraído...
Desejava também nem de leve tocar
no passado, que às vezes volta ao teu olhar
quando um fato banal qualquer o ressuscita;
e sabendo que és graciosa e bonita
e que ao saíres, certo, hás de ouvir galanteios,
quisera te ocultar meus obscuros receios
e nunca me irritar por tão fúteis razões.
Odiando como odeio o ciúme, as discussões,
quisera estar imune ao pérfido veneno
da suspeita, e seguir ao teu lado, sereno
na absoluta certeza de saber-te minha!
Quisera!
E, entretanto, o ciúme já me espinha;
e me atormenta como uma criança, quando
cumprimentas alguém que acaso vai passando;
e sofro intimamente, inquieto, desconfiado,
a arquitetar perguntas sobre teu passado;
e (maldoso que sou!) ponho logo maldade,
se me falas de alguém com ar de intimidade,
irritando-me ao auge ingênuas desconfianças
ao te ouvir relembrando apagadas lembranças...
E porque vou sentindo ao desfolhar dos dias
as dúvidas nublando as nossas alegrias,
e as rusgas, mais e mais, nos fazendo sofrer,
e prevendo também que amanhã, sem querer,
talvez o nosso amor em ódio se transmude,
resolvi, - porque tive sempre essa virtude
e porque ainda me sobra amor-próprio talvez,
escrever-te...
E hoje o faço, a derradeira vez!
Renuncio a esse amor. Prefiro assim, e penso
não ter ido de encontro ao que o destino quer,
a vê-lo ( eu que o sonhei e o fiz tão belo e imenso),
vulgarmente acabar como um amor qualquer!
( Poema de J. G . de Araujo
Jorge
do livro " AMO ! " - 1938 )
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